No dia de São José – gratidão e lembranças

Picture of Pe. Sirlei Oliveira

Ele me escolheu

Faz 21 anos de minha ordenação diaconal. Hoje tenho uma grande certeza: foi São José quem escolheu esta data. Você pode até pensar que seja ousadia de minha parte, que eu esteja até fora das minhas condições normais de uso da razão ou algo parecido. Mas, quando olho para trás e vejo tudo o que aconteceu — e da maneira como aconteceu —, creio cada vez mais nesta verdade, que você tem todo o direito de não acreditar da forma como eu acredito.

Deixe-me voltar um pouco no tempo e falar de duas pessoas essenciais em minha vida: meus pais. Eu fui querido e recebido numa casa com seis irmãos. Eu, o caçula, temporão, chegando numa situação muito complicada em casa. Minha irmã Neusa, que nem cheguei a conhecer, faleceu poucos meses depois que nasci. Eu não consigo imaginar como estavam os corações de Júlia e José — aliás, Júlia Maria. Pelo que ouvi no testemunho de meus irmãos, era um misto de tristeza e alegria, chegada e partida.

Nasci doente. Durante toda a gestação, minha mãe, mulher forte, foi valente e em nenhum momento recusou minha presença. Hoje posso dizer que foi justamente a minha gestação que fez com que Dona Júlia e Seu José se levantassem das quedas que haviam sofrido. Pesei menos de dois quilos e quase morri. Fui levado às pressas ao hospital, num trem de passageiros — quase o único meio de transporte para uma família de ferroviários. Achavam que eu nem suportaria a longa viagem.

Voltei para casa depois de alguns dias de internação. Como não recordar o profeta Jeremias ao falar de sua vocação: “Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia; antes do teu nascimento, eu já te havia consagrado…” (Jr 1,5). Deus tem os seus propósitos, que vamos descobrindo, às apalpadelas, no decurso dos dias e das noites.

Um pulo na história

De repente, lá estava eu. Depois de anos de formação acadêmica, pastoral, comunidades, tantas pessoas pelo caminho… lá estava eu, deitado no chão daquela Igreja Matriz Divino Espírito Santo, onde tudo começou a se definir em minha vocação. Só experimentei assombro espiritual semelhante àquele no dia de minha ordenação diaconal, quando subi ao alto da pedra, no Sítio Guarda, na aldeia de Cimbres, cidade de Pesqueira, Pernambuco — lugar onde a Virgem, sob o título de Nossa Senhora da Graça, se manifestou a duas pequenas meninas, Maria da Luz e Maria da Conceição, no ano de 1936.

Posso dizer, com toda certeza, que naquele chão eu toquei o céu. Aliás: senti todo o peso do céu sobre mim. E foi tudo muito forte e maravilhoso. Pairavam sobre mim, enquanto se entoava a Ladainha de Todos os Santos, as miríades dos seres espirituais criados por Deus e que permaneceram fiéis. Senti a presença dos santos e santas que fazem parte da minha vida: Santo Antão, Santo Antônio e Santa Teresa de Jesus. Ali estavam a beleza e a força espiritual do Corpo Místico de Cristo, Sua Igreja.

Transbordou em meu coração uma alegria que sarou todos os anos de luta, de expectativas, até de julgamentos. Alegria que inundou qualquer outro sentimento negativo.

Mas, e São José?

Naquele tempo, ele já havia me escolhido, mas eu ainda não me dava conta disso.

Hoje, olhando com mais maturidade espiritual e com o coração mais atento aos sinais de Deus, compreendo: José me escolheu porque quis caminhar comigo na missão. Escolheu me acompanhar no silêncio, na fidelidade escondida, na obediência cotidiana — virtudes que muitas vezes passam despercebidas, mas que sustentam uma vocação inteira.

E não foi por acaso que a minha ordenação diaconal aconteceu justamente em seu dia. Aquilo que antes eu via apenas como uma coincidência, hoje reconheço como providência. São José não apenas intercedeu por mim — ele marcou a minha história. Escolheu a data como quem diz: “Eu estarei com você”.

E ele esteve.

Esteve naquele altar. Esteve naquela igreja. Esteve na minha entrega.

E Deus, em sua infinita delicadeza, me concedeu ainda mais: a presença do meu pai, José Pereira, naquele dia. Um José na terra, outro no céu — ambos, de alguma forma, sustentando aquele momento decisivo da minha vida. Meu pai presente, olhando, talvez sem entender toda a profundidade do que acontecia, mas amando, apoiando, estando ali. Isso, para mim, já era tudo.

Ali estavam pessoas queridas, especialmente meus familiares

Ali também estavam minha família, meus amigos, meus irmãos de seminário — rostos que carregam histórias, lutas, alegrias e lágrimas compartilhadas. Estava a Paróquia Divino Espírito Santo, berço da minha vocação, lugar onde tudo começou a ganhar forma. Estava a Banda Paráclito, com sua música que tantas vezes elevou minha alma a Deus. Estava o Movimento Emaús, que tanto sentido fez — e ainda faz — na minha caminhada.

Nada daquilo foi por acaso.

Tudo foi graça.

Hoje, 21 anos depois, eu não tenho todas as respostas. Mas tenho uma certeza: fui conduzido. Fui cuidado. Fui acompanhado.

E, de maneira muito especial, fui escolhido.

Escolhido por Deus.

E, na ternura silenciosa desse mistério, guardado sob o olhar fiel de São José.

Meu pai

Não poderia deixar uma de falar deste homem ai, meu pai. Que orgulho deste “velhinho”. Esteve também em minha ordenação presbiteral. Olhando esta foto, as lágrimas falam mais do que as palavras. O céu é logo!

Meu pai, José Pereira no dia de minha ordenação diaconal

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