A sabedoria dos livros não lidos

Picture of Pe. Sirlei Oliveira

Tenho uns que estão lacrados

Não me considero um leitor contumaz. Não sou daqueles que leem 50 livros no ano. Deveria? Mas gosto da companhia de meus poucos livros.

Uns eu ainda nem os libertei do embrulho. São como prisioneiros que nem esperam mais a libertação. Comprei porque, quando posso, gosto de comprar livros. Só o fato de os ter, me coloca na ridícula categoria de intelectual.

Gosto do ritual quase invisível para a compra de livros. Geralmente vou ao cinema ( o que também me coloca naquela categoria ridícula descrita acima), depois tomo um café, melhor ainda sendo um capuccino, e vou, primeiramente, sentir o cheiro dos livros em uma livraria.

Se eu fosse contratado para ser como um cachorro farejador de drogas em um aeroporto, e se fosse me dada a missão de cheirar os livros trancafiados nas malas, para descobrir se entre suas páginas haveria algo ilícito, eu seria o melhor humano cachorro farejador disponível.

Mas não é do pelo cheiro (permitam-me não usar odor) que me prendo à um livro. Também tem a beleza da capa, a importância do autor, o toque naquele papel brilhante e, às vezes, com letras m relevo. Tudo isso me encanta e me ilude nos livros.

Umberto Eco e seus livros

Este escritor italiano falecido em 1916, com uma obra vasta e com nenhum livro lido por mim (não por desprezo mas pela minha ridícula condição de intelectual), tinha uma biblioteca com cerca de 30 mil títulos.

Muitos destes livros, ainda não lidos. E no livro que li sobre ele, e me parece que nem é uma frase dele, diz: “livros lidos são menos valiosos que os não lidos”.

Isso me faz crer ainda mais que os livros, sejam eles muitos ou poucos (tenho apenas umas três centenas deles) são para estarem ali, prontos para serem consultados. Sim, eu ainda me consulto com eles. Mas confesso (uma confissão que não precisa ser sacramental) que cada vez menos, por causa de todos os mecanismos de busca que hoje a internet me oferece.

Livros não lidos

Uma pergunta: dos livros que não leu, qual o que gostaria de ler? E porque gostaria de ler este livro.

Tenho aqui entre os meus alguns da coleção um que ganhei de um amigo que é de Cervantes, O engenhoso fidalgo Dom Quixote Mancha. Que livro difícil de ser lido. Traduzido para um português culto, clássico, com enormes notas de rodapé. Sabe aquele livro que você não pode criar nenhuma expectativa de chegar à última página?

Não me recrimine pelo que vou falar: cheguei a comprar um outro Dom Quixote, de fácil leitura. Ainda estou brigando com ele como o fidalgo contra os moinhos de vento.

Mas deixa eu terminar esta papo chato de gente categorizada como ridículo intelectual. Quero propor um desafio: de ler os não lidos. Não todos, claro. Não seremos aqueles que prometem e não cumprem, mesmo que ainda não estejamos cansados disso. Um apenas. Um. Até o fim do ano. Olha que facilidade. Estou pensando em mim, primeiramente.

Mas responde ai qual o livro e como fará pra lê-lo. Pode ser até que eu o presenteie com um. Quem sabe!

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